Sexta-feira, 3 de Novembro de 2006

Praxe académica

 
Queima das Fitas - Universidade Internacional da Figueira da Foz - Portugal
 
 
 

A Praxe académica, ou simplesmente Praxe, consiste no conjunto de tradições, usos e costumes de uma comunidade académica.
 
No que consiste
 
A Praxe Académica é um conjunto amplo de tradições usos e costumes académicos que se praticam e repetem ao longo dos anos. Fortemente ligada ao conceito de Praxe Académica, está a tradição de integrar os caloiros na sua nova escola e na própria Praxe, pelo que a praxe pode ser considerada um ritual iniciático fortemente hierarquizado. Esta ligação é forte de tal modo que por muitas vezes se confunde o conceito de Praxe como conjunto de tradições e rituais com os meros rituais de integração dos novos alunos (talvez semelhante ao Trote estudantil do Brasil), porém tal não deve ser feito. Actualmente, as actividades que os compõem incluem, a título de exemplo, comer sem recorrer a talheres, pinturas no corpo ou banhar-se em fontes públicas. Embora estas actividades sejam aparentemente pacíficas, os excessos e os efeitos que causam nos alunos que as praticam, são mais controversos.
 
Associado à praxe académica, está o mote Dura Praxis, Sed Praxis - a praxe é dura, mas é a praxe! - baseada no mote latino Dura Lex, Sed Lex .
 
Origens
 
A actual praxe académica surge na Universidade de Coimbra. Tem como base uma jurisdição especial, que (o "foro académico"), a qual era aplicada pela Polícia Académica. A organização desta polícia era constituída por alunos, e a hierarquia definida pela antiguidade dos mesmos na universidade. O seu papel era o de zelar pela ordem no campus, e fazer cumprir as horas de estudo e recolher obrigatório por alunos e professores, sob pena de prisão, sobrepondo-se às autoridades oficiais. Também tinha a incumbência de evitar a entrada na faculdade dos habitantes da cidade que não fossem estudantes ou professores. Com estas responsabilidades, misturavam-se rituais de iniciação (ou "investidas"), para os novos alunos, recém-chegados - os caloiros - à universidade, geralmente envolvendo actos de violência.
 
Campus é uma palavra latina que se refere a um local, numa universidade ou faculdade
, onde fisicamente se concentram as salas de aula e laboratórios de várias disciplinas.
 
Pouco mais é conhecido destes rituais, até que em 1727, devido à morte de um aluno, D. João V proíbe-a: "Hey por bem e mando que todo e qualquer estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos."
 
No século XIX, o termo "investida" dá lugar aos termos "caçoada" e "troça". Os episódios de violência sucedem-se, com os novos alunos a serem rapados ou obrigados a cantar e a dançar e chega mesmo a haver confrontos físicos com os mais velhos.
 
Com o fim da polícia universitária em 1834, os estudantes decidem criar uma adaptação desta tradição e recuperar os rituais de iniciação. Assim, após o toque da "cabra" - o sino da torre da Universidade - patrulham as ruas da cidade, em busca de infractores, organizados em "trupes". No final do século XIX, surgem novamente relatos de violência entre estudantes, relacionados com os rituais de iniciação, onde os novos alunos eram obrigados a cantar e dançar, e em que era também frequente cortar-lhes o cabelo. Num destes episódios, um dos praxistas é morto por um caloiro.
 
                                 "Cabra" - o sino da torre da Universidade
                              "Cabra" - o sino da torre da Universidade


A praxe foi entretanto interrompida durante alguns períodos. Durante a Implantação da República a praxe é abolida devido à oposição dos estudantes republicanos, sendo reposta em 1919.
 
Do século XX à actualidade
 
Durante o século XX, a praxe académica desempenhou um papel de luta contra o salazarismo, e a Guerra Colonial. As consequentes represálias, culminaram no Luto Académico em 1961, que levou à suspensão de todas as actividades. Com o fim do regime a 25 de Abril de 1974, no final da década de 70, a praxe regressou a Coimbra e espalhou-lhe pelas restantes universidades de Portugal, na década seguinte (anos 80). A Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto e a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto são exemplos de instituições que nunca voltaram a re-implantar a tradição. No entanto, alguns dos seus alunos, são por vontade própria praxados por outros alunos das faculdades de Medicina, Ciências e Letras. Na cidade de Lisboa a adesão à praxe aumentou mas lentamente, devido também em parte à dimensão da própria cidade e ao facto de não ser uma cidade académica, como Coimbra ou Évora. Um caso de sucesso é o da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, regendo-se por um código de praxe próprio e tentando respeitar e reavivar a tradição. No entanto, devido à volatilidade própria do meio estudantil, é difícil precisar actualmente qual é a adesão à praxe em cada Universidade. Têm sido frequentes os relatos de violência física e psicológica cometidos sobre os 'caloiros', tanto nas grandes universidades como nos estabelecimentos de menor dimensão. Os movimentos anti-praxe que entretanto surgiram opõem-se às tradições da Praxe, remetendo para aspectos obscuros e desonrosos destas tradições. Afirmam que o número de relatos é inferior ao número de incidentes que realmente acontecem, enquanto que aqueles vinculados à Praxe negam vigorosamente. Assim a sociedade vê-se também dividida entre as duas versões, mantendo-se o actual status quo.
 
Traje académico
 
O traje académico actual, também apelidado de "capa e batina", é composto por um casaco longo (a batina), colete, camisa branca, calças simples, sapatos simples, e por uma capa, que deverá tocar no chão, quando colocada sobre os ombros, sem dobras. Esta é a indumentária reservada aos homens, que podem também usar um gorro simples. As senhoras, em vez da batina, usam um casaco pela cinta, mas não cintado, uma camisa branca, uma saia travada e abaixo do joelho, meias compridas, pretas e não opacas, sapatos simples, e uma capa igual à dos homens. Todas as peças, à excepção da camisa, são pretas, a cor que simboliza a igualdade entre os estudantes e a solenidade. O preto também é utilizado porque era útil quando um estudante se queria esconder ao longo da noite, e é a cor menos vulnerável à sujidade. Contudo, o traje académico não é igual em todo lado: na Universidade do Minho, por exemplo, as calças do traje masculino não são compridas, mas sim pelo joelho, enquanto que, em vez de um gorro, se usa o "tricórnio", um chapéu de três bicos, ostentado por ambos os sexos; na Universidade do Porto, algumas mulheres usam meias compridas transparentes e não pretas, como são os casos do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) que as usam, pois mantém a cor original das meias usadas inicialmente pela Universidade a que pertencem - UP, e o caso das Orfeonistas, que as usam para se destacar, pela honrosa instituição à qual pertencem; na Universidade do Algarve, o traje académico adoptou a cor azul escuro, o chapéu "Infante" de largas abas (homenagem ao Infante D. Henrique), as senhoras, uma saia rodada comprida, e os senhores, umas plainas vincadas, com quatro botões na canela e quatro botões na braguilha.
 
As origens do traje académico masculino remontam ao século XVI, e sua principal função era esbater as diferentes origens sócio-económicas de cada aluno, sendo assim uma forma de promover a igualdade entre todos. Aliás, e apesar de hoje ter atingido um significado mais simbólico, ainda é esse o seu principal objectivo, se bem que nem sempre é assim entendido. Supõe-se que o traje feminino tenha surgido, na Universidade do Porto, em 1920.
 
Ao final dos estudos está geralmente associado o "rasganço" de toda a indumentária académica, com excepção da capa e da pasta académica, que assim acompanham o resto da vida do antigo estudante. Hoje em dia, são raros os estudantes que fazem, de facto, o "rasganço", devido ao peso sentimental atribuído ao traje, no final do curso. Dá-se, então, um "rasganço" simbólico através da "proibição" de se voltar a vestir o traje, usando-se apenas a capa - esta é a indumentária mais característica dos Veteranos, os alunos mais experientes.
 
Fitas
 
O uso da pasta académica só é permitido a partir do momento em que se deixa de ser caloiro. Contudo, o aspecto que a ela está mais associado são as Fitas. Estas são impostas ao estudante antes de este iniciar o último ano do seu curso. São oito fitas ao todo, da cor da faculdade/instituto/escola superior de cada estudante, identificando-o como um Finalista. Esta tradição remonta a meados do século XIX, quando as pastas eram compostas por duas partes independentes, e que eram mantidas unas com recurso a estas fitas.
 
A "Queima das Fitas" tem as suas origens nas celebrações que se faziam aquando o final dos cursos, onde os Finalistas queimavam as suas fitas dentro de um penico. Tal como o "rasganço", aplicado ao traje académico, a "Queima das Fitas" é também um momento de despedida da vida de estudante. Terá sido iniciada em Coimbra, e é actualmente um dos maiores acontecimentos do calendário académico, em todas as cidades universitárias do país.
 
Hierarquia
 
A praxe estrutura-se, segundo o seu código, numa hierarquia complexa. No topo da hierarquia, encontramos o Dux Veteranorum, que será em princípio o estudante com mais inscrições, sendo eleito pelo Conselho de Veteranos. Os Veteranos são todos os estudantes que têm mais inscrições que as necessárias para acabar o curso. Em termos gerais, pode-se dizer que a praxe divide os estudantes em dois grupos: os "caloiros" (alunos do primeiro ano) e os "doutores". Dentro desta última categoria, cabem vários graus hierárquicos, dependendo do número de inscrições.
 
Contestação
 
É difícil precisar quando surgiu pela primeira vez a contestação à praxe. Teófilo Braga, que viria a ser Presidente da República, relatava como no seu tempo os estudantes faltavam às aulas para fugir à praxe. Segundo ele, "Enquanto o estudante vivia em Coimbra, envolvido ou exposto às sangrentas investidas, tinha de andar armado até aos dentes". Em 1902, um grupo de anti-praxistas liderados por José de Arruela consegue acabar com o canelão, praxe na qual os novos alunos eram arrastados ao pontapé pelos praxistas na ponte de Coimbra. Em 1903, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão assinam, em conjunto com outros estudantes, um "Manifesto anti-praxe". Apenas na década de 90 surgem movimentos organizados de combate à praxe, o MATA e o Antípodas. Estes movimentos juntam estudantes na contestação às tradições académicas e têm conseguido criar um clima de debate em torno da praxe, que até aí era assunto tabu. Em 2000 estreia o filme "Rasganço", de Raquel Freire. Apesar de não conter uma mensagem anti-praxe, o filme é por vezes crítico em relação ao fechamento da Universidade de Coimbra. O Conselho de Veteranos emite um comunicado contra a película. Em 2003, o MATA e o Antípodas juntam-se para criar um manifesto anti-praxe. O manifesto foi assinado por dezenas de personalidades, tais como Eduardo Prado Coelho, Baptista Bastos, Pedro Abrunhosa, Pacman, Rosa Mota, Vitorino, José Luís Peixoto, Manuel Cruz, Miguel Guedes e Sérgio Godinho.
Fonte: Wikipédia. 

 
 
Observação:
 
Apesar de não ter endereço de e-mail nem url, com o devido respeito e agradecendo a colaboração, transcrevo para este corpo principal um comentário feito a este artigo, alterando um pouco a minha "fonte":
 
 

"De Duarte Portela a 5 de Novembro de 2006 às 21:42
 
«na Universidade do Porto, algumas mulheres usam meias compridas transparentes e não pretas, como são os casos do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) que as usam, pois mantém a cor original das meias usadas inicialmente pela Universidade a que pertencem - UP, e o caso das Orfeonistas, que as usam para se destacar, pela honrosa instituição à qual pertencem»
 
Permita-me que o corrija, mas as estudantes da Universidade do Porto pertencentes ao Orfeão Universitário do Porto, de facto e tal como as do ICBAS, usam meias "cor de pele" exactamente pelas mesmas razões: não para se destacar, como refere, mas porque quem criou o primeiro traje universitário feminino em Portugal foi o Orfeão Universitário do Porto, mesmo antes de Coimbra. Só posteriormente, a cor original foi transformada e adoptada pela Universidade de Coimbra no preto, “tradição” mais tarde adaptada à grande maioria das Faculdades do Porto, no renascimento da Praxe na cidade Invicta. O Orfeão e o ICBAS, na verdade, apenas se mantiveram fiéis ao traje inicial."
 
 
Publicado por: Praia da Claridade às 00:33
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