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PRAIA DA CLARIDADE

Figueira da Foz - Portugal

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11
Jul06

As siglas poveiras

Praia da Claridade

 
Exemplo de siglas poveiras hereditárias numa família de quatro filhos. A posição dos piques varia consoante a família.
 
                Exemplo de siglas poveiras,                    
    hereditárias numa família de quatro filhos.         
  A posição dos piques varia consoante a família.

 
 

As siglas poveiras ou marcas poveiras são uma forma de "proto-escrita primitiva", tratando-se de um sistema de comunicação visual simples usado na Póvoa de Varzim durante séculos, em especial nas classes piscatórias. Para se escrever usava-se uma navalha e eram escritas sobre madeira, mas também poderiam ser pintadas, por exemplo, em barcos ou em barracos de praia.
 
No passado, era também usado para recordar coisas; eram conhecidas como a «escrita» poveira, mas não formavam um alfabeto, funcionando tal como os hieróglifos; usada porque muitos pescadores eram desconhecedores do alfabeto latino, e assim as runas adquiriram bastante utilidade. Por exemplo, era usadas pelos vendedores no seu livro de conta fiada, sendo lidas e reconhecidas como reconhecemos um nome escrito em alfabeto latino. Os valores em dinheiro eram simbolizados por rodelas e riscos designando vinténs e tostões, respectivamente; e desenhados depois da marca de um dado indivíduo.
 
 
História
 
As siglas terão entrado em uso na Póvoa de Varzim devido à colonização viking entre os séculos IX e X e permanecido na comunidade devido à prática da endogamia e protecção cultural por parte da população.
 
Os vikings (por vezes usa-se a forma aportuguesada viquingues ou ainda varegues) eram guerreiros-marinheiros da Escandinávia que entre o final do século VIII e o século XI pilharam, invadiram e colonizaram as costas da Escandinávia, Europa e ilhas Britânicas. Embora sejam conhecidos principalmente como um povo de terror e destruição, eles também fundaram povoados e fizeram comércio pacificamente.
 
As marcas poveiras  eram usadas como brasão ou assinatura familiar para assinar os seus pertences – também existiram na Escandinávia, onde eram chamados de "bomärken".
 
As siglas foram estudadas, pela primeira vez, por António dos Santos Graça no seu livro «Epopeia dos Humildes». Editado em 1952, o livro contém centenas de siglas e a história e tragédia marítima poveiras. Outras das suas obras são "O Poveiro" (1932), "A Crença do Poveiro nas Almas Penadas" (1933) e "Inscrições Tumulares por Siglas" (1942).
 
 
Herança da marca
 
As siglas são brasões de famílias hereditários, transmitidos por herança de pais para filhos, têm simbolismo e só os herdeiros podem usar.
 
As siglas eram passadas do pai para o filho mais novo, aos outros filhos eram dadas a mesma sigla mas com traços, chamados de «pique». Assim, o filho mais velho tem um pique, o segundo dois, e por aí em diante, até ao filho mais novo que não teria nenhum pique, herdando assim o mesmo símbolo que o seu pai.
 
Na tradição poveira, que ainda perdura, o herdeiro da família é o filho mais novo tal como na antiga Bretanha e Dinamarca. O filho mais novo é o herdeiro dado que é esperado que tome conta dos seus pais quando estes se tornassem idosos.
 
 
Siglas e religião
 
Locais úteis para o estudo das siglas são os templos religiosos localizados não só na cidade e no seu concelho, mas também por todo o noroeste peninsular, em especial no Minho (em Portugal), mas também na Galiza (Espanha).
 
Os Poveiros, ao longo de gerações, costumavam gravar nas portas das capelas perto de areais ou montes a sua marca como documento de passagem, como se pode verificar na Nossa Senhora da Bonança, em Esposende, e Santa Trega (Santa Tecla) no monte junto a La Guardia, Espanha. A marca serviria para como que os poveiros que mais tarde a vissem, que passou por ali ou para trazer boa ventura a si mesmos pelo santo que fora venerar.
 
Em 23 de Setembro de 1991 é inaugurada nas festividades de Santa Trega, uma escultura em honra às siglas poveiras que recorda a antiga porta coberta de siglas da capela de Santa Trega, por forma a perdurar o que tinha sido perdido. Com a inauguração veio da Póvoa de Varzim uma expedição a bordo da lancha poveira "Fé em Deus", cujos pescadores subiram ao Trega e oraram na ermida dedicada à padroeira do Monte. Os montes perto da costa, por serem visíveis do mar, têm importância na religiosidade dos poveiros. Outrora, os pescadores iam ao monte rezar à santa num ritual com cantigas por forma a mudar os ventos para que pudessem regressar a casa.
 
Os templos de Senhora da Abadia e São Bento da Porta Aberta, em Terras de Bouro, São Torcato, em Guimarães e Senhora da Guia, em Vila do Conde tem todos também a marca de siglas poveiras durante a sua história.
 
No concelho, estas siglas podem ainda ser encontradas em especial na Igreja Matriz (desde 1757), mas também na Igreja da Lapa na cidade e na Capela de Santa Cruz em Balasar.
 
A mesa da sacristia da antiga Igreja da Misericórdia que serviu de Matriz até 1757 guardava em si milhares de siglas que serviriam para um estudo mais pormenorizado, mas foi destruída quando a igreja foi demolida. Os poveiros escreviam a sua sigla na mesa da igreja matriz quando se casavam como forma a registar o evento.
 
 
Marcas de peixe
 
O peixe apanhado na rede pertencia ao seu proprietário, quer seja lanchão ou sardinheiro; os peixes eram assim marcados com sigla e entregues às mulheres dos donos da rede. As marcas de peixe são golpes feitos em forma de sigla no peixe em diferentes pontos.
 
A tripulação de cada barco tinha também uma sigla que era usada por todos os tripulantes, caso estes mudassem de barco passariam a usar a sigla desse barco.
 
 
Uso actual de siglas
 
Apesar de já não ter o uso de outrora, alguns banheiros ainda colocam a sua marca familiar nos barracões, acontecendo o mesmo dentro do núcleo familiar com os pertences em algumas famílias típicas. A Casa dos Pescadores da Póvoa de Varzim ainda aceita as siglas como formas correctas de assinatura.
 
No entanto, não existe contudo uma política de salvaguarda por parte do município. Pelo contrário, com a recente reestruturação dos barracões, muitas das siglas dos concessionários desapareceram das praias.
 

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