Quarta-feira, 20 de Julho de 2005

O maior burlão da história portuguesa

Artur Virgílio Alves dos Reis  (nasceu em Lisboa em 3 de Setembro de 1898 - faleceu em Julho de 1955)  foi certamente o maior burlão da história portuguesa e possivelmente um dos maiores do Mundo.
Foi o cabecilha da maior falsificação de notas de banco da História:
As notas de 500 escudos, efígie Vasco da Gama, em 1925.

Inícios

Filho de uma família modesta  -  o pai era cangalheiro, tinha problemas financeiros e acabou por ser declarado insolvente  -  Alves dos Reis quis estudar engenharia. Efectivamente, começou o primeiro ano do curso, mas abandonou-o para casar com Maria Luísa Jacobetti de Azevedo, no mesmo ano em que a casa comercial do pai faliu. Em 1916, emigrou para Angola, para tentar fazer fortuna e assim escapar às humilhações que lhe eram impostas pela abastada família de Luísa, devido à diferença de condição social. Começa como funcionário público nas obras públicas de esgotos.

Em Angola, fez-se passar por engenheiro, depois de ter falsificado diplomas de Oxford, aliás de uma escola politécnica de engenharia que nem sequer existia: a Polytechnic School of Engineering. De acordo com esse diploma falsificado, teria estudos de ciência da engenharia, geologia, geometria, física, metalurgia, matemática pura, paleografia, engenharia eléctrica e mecânica, mecânica e física aplicadas, engenharia civil geral, engenharia civil e mecânica, engenharia geral, design mecânico e civil. Ou seja, quase tudo...

Com um cheque sem cobertura, comprou a maioria das acções da companhia dos Caminhos de Ferro Transafricanos de Angola, em Moçâmedes. Tornou-se rico e ganhou prestígio.

O caso Ambaca

De volta a Lisboa, em 1922, compra uma empresa de revenda de automóveis americanos. Depois tenta apoderar-se da Companhia Ambaca. Para o conseguir, passou cheques sem cobertura e usou depois o dinheiro da própria Ambaca para cobrir os cheques sobre a sua conta pessoal. No total, apropriou-se ilegitimamente de 100 mil dólares americanos. Com esse dinheiro comprou também a Companhia Mineira do Sul de Angola. No entanto, antes de controlar toda a Ambaca, foi descoberto e preso no Porto, em Julho de 1924, por desfalque.
Foi acusado também de tráfico de armas.

O caso das notas Vasco da Gama

Foi durante o tempo da prisão — só esteve preso 54 dias e foi libertado em 27 de Agosto de 1924 por pormenores processuais — que concebeu o seu plano mais ousado. A sua ideia era falsificar um contrato em nome do Banco de Portugal – o banco central emissor de moeda, e que na altura era uma instituição parcialmente privada – que lhe permitiria obter notas ilegítimas mas impressas numa empresa legítima e com a mesma qualidade das verdadeiras.

Em 1924, Alves dos Reis contactou vários cúmplices e outros colaboradores de boa-fé para pôr os seu plano em marcha. Entre os seus cúmplices e colaboradores encontrava-se o financeiro holandês Karel Marang van Ijsselveere; Adolph Hennies, um espião alemão; Adriano Silva; Moura Coutinho; Manuel Roquette e especialmente José Bandeira. Um pormenor importante era que José Bandeira era irmão de António Bandeira, o embaixador português na Haia.

Alves dos Reis preparou um contrato fictício e conseguiu que este contrato fosse reconhecido notarialmente. Através de José Bandeira, obteve também a assinatura de António Bandeira. Conseguiu ainda que o seu contrato fosse validado pelos consulados da Inglaterra, da Alemanha e França. Traduziu o contrato em francês e falsificou assinaturas da administração do Banco de Portugal.

Através de Karel Marang, dirigiu-se a uma empresa de papel-moeda holandesa, mas esta remeteu-os para a empresa britânica Waterlow and Sons Limited de Londres, que era efectivamente a casa impressora do Banco de Portugal. Em 4 de Dezembro de 1924, Marang explicou a Sir William Waterlow, que por razões politicas, todos os contactos ligados à impressão das novas notas deveriam ser feitos com a maior das discrições. O alegado objectivo das notas era conceder um grande empréstimo para o desenvolvimento de Angola. Cartas do Banco de Portugal para a Waterlow and Sons Limited foram também falsificadas por Alves dos Reis. William Waterlow escreveu uma carta confidencial ao governador do Banco de Portugal, Inocêncio Camacho Rodrigues em que referia os contactos com Marang. Mas, aparentemente, a carta extraviou-se.

No caderno de encargos de impressão das notas, estipulava-se que estas viriam a ter posteriormente a sobrecarga Angola dado que, como se disse acima, alegadamente se destinariam a circular aí. Por essa razão, as notas tinham números de série de notas já em circulação em Portugal.

Waterlow and Sons Limited imprimiu assim 200 mil notas de valor nominal 500 escudos (no total quase 1% do PIB português de então), efígie Vasco da Gama chapa 2, com a data de 17 de Novembro de 1922. O número total de notas falsas de 500 escudos era quase tão elevado como o de notas legítimas. A primeira entrega teve lugar em Fevereiro de 1925, curiosamente cerca de um ano depois das notas verdadeiras de 500 escudos, efígie Vasco da Gama, terem começado a circular. As notas passavam de Inglaterra a Portugal, com a ajuda dos seus cúmplice, José Bandeira, que utilizava as vantagens diplomáticas de seu irmão, Karel Marang e ligações ao cônsul da Libéria em Londres.

Alves dos Reis, embora o mentor da fraude e o falsificador de todos os documentos ficava só com 25% das notas. Ainda assim, com esse dinheiro fundou o Banco de Angola e Metrópole em Junho de 1925. Para obter o alvará de abertura deste banco, recorreu também a diversas outras falsificações. Investiu na bolsa de valores e no mercado de câmbios. Comprou também o Palácio do Menino de Ouro (actualmente o edifício em Lisboa do British Council)  ao milionário Luís Fernandes. Adquiriu três quintas e uma frota de táxis. Além disso terá gasto uma avultadíssima soma em jóias e roupas caras, para a sua mulher, e para a sua amante, Fie Carelsen, uma actriz holandesa. Tentou também comprar o Diário de Notícias.

O objectivo de Alves dos Reis era afinal comprar acções, e conseguir controlar, o próprio Banco de Portugal, de forma a cobrir as falsificações e abafar qualquer investigação. Durante o Verão de 1925, directamente, ou através do cônsul da Venezuela em Lisboa, Simon Plancez-Suarez, comprou 7000 acções do Banco de Portugal. No final de Setembro já tinha 9000, e no final de Novembro 10000. Seriam necessárias 45000 acções para controlar o banco central.

Burla revelada

Ao longo de 1925, começaram a surgir rumores de notas falsas, mas os especialistas de contrafacção dos bancos não detectaram nenhuma nota que parecesse falsa. A partir de 23 de Novembro de 1925, Alves dos Reis e os negócios pouco transparentes do Banco de Angola e Metrópole começam a atrair a curiosidade dos jornalista de O Século – o mais importante diário português de então. O que os jornalistas tentavam perceber era como era possível que o Banco de Angola e Metrópole concedesse empréstimos a taxas de juro baixas, sem precisar de receber depósitos. Inicialmente, pensou-se que se tratava de uma táctica alem㠗 para perturbar o país e obter vantagens junto da colónia angolana.

A burla é publicamente revelada em 5 de Dezembro de 1925 nas páginas de O Século. Alguns dias antes, um funcionário de um banco no Porto apercebeu-se que tinham em caixa duas notas aparentemente genuínas, mas com o mesmo número de série. A informação foi passada ao Banco de Portugal. São dadas instruções para que as agências bancárias ponham as notas em cofre por ordem de número, para controlar duplicações. Muitas mais notas com números repetidos aparecem.

O património do Banco de Angola e Metrópole foi confiscado e obtidas provas junto da Waterlow and Sons Limited. Alves dos Reis é preso a 6 de Dezembro, quando já se encontrava a bordo ao tentar fugir para Angola. Tinha 28 anos no momento da prisão.

A maior parte dos seus associados são presos também. Karel Marang e Adolph Hennies escaparam e saíram de Portugal.

Julgamento e prisão

Alves dos Reis esteve preso 108 dias esperando por julgamento. Durante esse tempo, falsificou outros documentos com os quais conseguiu convencer os juízes que a própria administração do Banco de Portugal estava implicada na fraude. Em consequência disso, o julgamento esteve suspenso cinco anos.

Foi finalmente julgado no Porto, em Maio de 1930, e condenado a 20 anos: 8 de prisão e 20 de degredo. Durante o julgamento, alegou que o seu objectivo era simplesmente desenvolver Angola.
Na prisão, converteu-se ao protestantismo. Foi libertado em Maio de 1945. Foi-lhe oferecido um emprego de empregado bancário; recusou. Morreu de ataque cardíaco em Julho de 1955, pobre.

José Bandeira teve idêntica condenação. Morreu em 1957, sem fortuna. Hennies fugiu para Alemanha. Reapareceu mais tarde, sob o seu nome verdadeiro, Hans Döring. Morreu em 1957, sem fortuna. Karel Marang foi preso e julgado na sua Holanda natal, mas sentenciado a 11 meses de cadeia. Posteriormente, naturalizou-se francês e terminou os seus dias, muito rico, em Cannes.

Epílogo

O escudo, a moeda portuguesa, teve perturbações cambiais e perdeu muito da sua credibilidade. As notas de 500 escudos começaram a ser retiradas de circulação a 7 de Dezembro de 1925.

A 6 de Dezembro, o Banco de Portugal ordenou a retirada de circulação de todas as notas de 500 escudos. Inicialmente a troca das notas foi autorizada até 26 de Dezembro. Durante estes 20 dias, saíram de circulação 115 000 notas legítimas ou não. No entanto, em Abril de 1932, o Banco de Portugal determinou que fossem abonadas aos portadores de reconhecida boa fé as notas de 500 escudos (...), quer sejam autênticas, quer façam parte das que foram entregues por Waterlow & Sons a Marang e seus cúmplices. Isso implicou um enorme prejuízo para o banco central.

Na verdade, um pequeno grupo de notas – a que se veio a chamar notas camarão – foram recusadas para troca pelo Banco de Portugal. O nome provinha de terem sido banhadas numa solução de ácido cítrico, com o objectivo de as livrar do cheiro de tinta fresca. O resultado foi uma ligeira descoloração, resultando numa cor semelhante ao daquele marisco.

De acordo com a lei portuguesa, as notas retiradas de circulação em 1925 puderam ser trocadas no Banco de Portugal até 1995. Naturalmente que esta prescrição, não era relevante dado que o valor de colecção das notas (legítimas e falsas) a partir dos anos 50 passou a ser muito superior ao seu valor facial.

A fraude criou uma enorme crise de confiança na população em relação aos poderes públicos. Embora os desenvolvimentos desse período sejam complexos, essa crise pode ter facilitado o golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, que derrubou o presidente da República, Bernardino Machado, e deu origem à ditadura, e a partir de 1932, ao Estado Novo de Salazar.

O Banco de Portugal processou a Waterlow & Sons nos tribunais londrinos:  um dos mais complexos casos da história judiciária britânica até então.
Sir William Waterlow foi demitido de presidente da casa impressora em Julho de 1927. Em 1929, foi eleito presidente da câmara (mayor) de Londres, mas morreu de peritonite antes da decisão judicial.
O caso foi resolvido em 28 de Abril de 1932. A Waterlow & Sons pagou uma indemnização ao Banco de Portugal e faliu.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
 
Publicado por: Praia da Claridade às 00:15
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1 comentário:
De Anónimo a 20 de Julho de 2005 às 13:43
Como não podia deixar de ser, Moita Flores, o Mestre como lhe chamo, conseguiu recuperar muito bem esta personagem do Alves dos Reis.

(há resposta ao teu comentário no meu blog)cokas
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