Sexta-feira, 11 de Novembro de 2005

René Descartes

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René Descartes (31 de Março de 1596, † 11 de Fevereiro de 1650), também conhecido como Cartesius, foi um filósofo, um físico e um matemático francês. Notabilizou-se sobretudo pelo seu trabalho revolucionário da Filosofia, tendo também sido famoso por ser o inventor do sistema de coordenadas cartesiano, que influenciou o desenvolvimento do Cálculo moderno.

Descartes, por vezes chamado o fundador da filosofia moderna e o pai da matemática moderna, é considerado um dos pensadores mais importantes e influentes da história humana. Ele inspirou os seus contemporâneos e gerações de filósofos. Na opinião de alguns comentadores, ele iniciou a formação daquilo a que hoje se chama de
Racionalismo continental (supostamente em oposição à escola que predominava nas ilhas britânicas, o Empirismo), posição filosófica dos séculos XVII e XVIII na Europa.

Outros autores, entre os quais
Ernest Gellner, não vêem então uma grande oposição entre o "Racionalismo continental" do século XVIII e o empirismo. O grande cisma teria início com Hegel, que partiu da posição de Kant onde havia já alguns sinais de Idealismo, mas ainda uma base racional que não se desviava muito da tradição empírica Inglesa. A leitura de Hume foi um ponto fulcral na obra de Kant, até então sem qualquer texto relevante publicado. Kant disse mesmo que Hume o despertou de um "sono dogmático".

A sua Vida

Descartes nasceu em
La Haye, Indre-et-Loire, França. Com oito anos, ingressou no Colégio Jesuíta Royal Henry-Le-Grand em La Flèche. Tinha bastante liberdade e era apreciado pelos professores, mas declarou no Discurso Sobre o Método decepção com o ensino escolástico. Depois, seguiu os seus estudos na Universidade de Poitiers, graduando com Baccalauréat e Licença em Direito em 1616.

Contanto, Descartes nunca exerceu o direito, e em
1618 alistou-se no exército do Príncipe Maurício de Nassau, com a intenção de seguir carreira militar. Mas declarava-se menos um actor do que um espectador: antes ouvinte numa escola de guerra do que verdadeiro militar. Conheceu então Isaac Beeckman, e compôs um pequeno tratado sobre música intitulado Compendium Musicae. É nessa época também que escreve Larvatus prodeo (Eu caminho mascarado). Em 1619, viajou até a Alemanha e no dia 10 de Novembro teve uma visão em sonho de um novo sistema matemático e científico. Em 1622, ele retornou a França e passou os anos seguintes em Paris e algumas outras partes da Europa.

Em
1628, ele compôs as Regulae ad directionem ingenii (Regras para a Direcção do Espírito), e partiu para os Países Baixos, onde viveu até 1649, mas mudando de endereço frequentemente. Em 1629 começou a trabalhar em Tratado do Mundo, uma obra de física, que deveria defender a tese do heliocentrismo, mas em 1633, quando Galileu foi condenado, Descartes abandonou os seus planos de publicá-lo. Em 1635, a filha ilegítima de Descartes, Francine, nasceu. Ela foi baptizada no dia 7 de Agosto de 1635.  A sua morte em 1640 foi um grande choque para Descartes.

Em
1637, ele publicou três pequenos resumos de sua obra científica: A Dióptrica, Os Meteoros e A Geometria mas é o prefácio dessas obras que continua a ser lido até hoje: o Discurso Sobre o Método. Em 1641, aparece a sua obra mais conhecida: as Meditações Sobre a Filosofia Primeira, com os primeiros seis conjuntos de Objecções e Respostas. Os autores das objecções são: do primeiro conjunto, o teólogo holandês Johan de Kater; do segundo, Mersene; do terceiro, Thomas Hobbes; do quarto, Arnauld; do quinto, Gassendi; e do sexto conjunto, Mersene. Em 1642, a segunda edição das Meditações incluía uma sétima objecção, feita pelo jesuíta Pierre Bourdin, seguida de uma Carta a Dinet. Em 1643, a filosofia Cartesiana foi condenada pela Universidade de Utrecht, e Descartes começou a sua longa correspondência com a Princesa Elizabeth de Bohemia. Descartes publicou Os Princípios de Filosofia, uma espécie de manual cartesiano, e faz uma visita rápida a França em 1644, onde encontra o embaixador da França junto à corte sueca, Chanut, que o põe em contacto com a rainha Cristina. Em 1647 ele foi premiado com uma pensão pelo Rei da França e começou a trabalhar na Descrição do Corpo Humano. Ele entrevistou Frans Burman em Egmond-Binnen em 1648, resultando na Conversa com Burman. Em 1649 ele foi à Suécia a convite da Rainha Christina, e o seu Tratado das Paixões, que ele dedicou a Princesa Elizabete, foi publicado.

René Descartes morreu de pneumonia no dia
11 de Fevereiro, 1650 em Estocolmo, Suécia, onde ele estava a trabalhar como professor, a convite da Rainha. Acostumado a trabalhar na cama até ao meio-dia, por ter sofrido com as demandas da Rainha Christina - começava os seus estudos às 5 da manhã. Como um católico num país protestante, ele foi enterrado num cemitério de crianças não baptizadas, em Adolf Fredrikskyrkan em Estocolmo. Depois, os seus restos mortais foram levados para a França e enterrados na Igreja de São Genevieve-du-Mont, em Paris. Um memorial construído no século XVIII permanece na igreja sueca.

Durante a
Revolução Francesa os seus restos mortais foram desenterrados para irem para o Panthéon, ao lado de outros grandes pensadores franceses. A vila no Vale Loire onde ele nasceu foi renomeada La Haye - Descartes.
Em
1667, depois da sua morte, a Igreja Católica Romana colocou as suas obras no Índice de Livros Proibidos.

A Cultura é inimiga da Razão

O pensamento de Descartes é revolucionário para uma sociedade
feudalista em que ele nasceu, onde a influência da Igreja ainda era muito forte e quando ainda não existia uma tradição de "produção de conhecimento". Para a sociedade feudal, o conhecimento estava nas mãos da Igreja. Aristóteles tinha deixado um legado intelectual que o clero se encarregava de disseminar.

Descartes viveu numa época marcada pelas guerras religiosas entre
Protestantes e Católicos na Europa. Ele viajou muito e viu que sociedades diferentes têm crenças diferentes, mesmo contraditórias. Aquilo que numa região é tido por verdadeiro, é achado como ridículo, disparatado, mentira, nos outros lugares.

Descartes viu que os "costumes", a história de um povo, a sua tradição "cultural", influenciam a forma como as pessoas pensam, aquilo em que acreditam.

Descartes quer acabar com a influência desses "costumes" no pensamento. Ele quer ser o mais objectivo possível, imparcial. Ele quer fundamentar o seu pensamento em verdades claras e cristalinas. Para isso, de acordo com o seu método, devem ser eliminadas quaisquer influências de ideias que muitas vezes nos são "dados adquiridos" mas que são pura e simplesmente alguma estupidez que alguém nos contou (talvez mesmo na nossa infância) sem que nunca nos tenhamos dado conta. Só nos devemos basear em enunciados claros e evidentes.

O primeiro pensador "moderno"

Descartes é considerado o primeiro filósofo "moderno".  A sua contribuição à
epistemologia (a) é essencial, assim como às ciências naturais por ter estabelecido um método que ajudou o seu desenvolvimento. Descartes criou, nas suas obras Discurso sobre o método e Meditações - ambas escritas no vernáculo, ao invés do latim tradicional dos trabalhos de filosofia - as bases da ciência contemporânea.

(a) - Ver definição de "epistemologia" no artigo sobre "Enfermagem"
              publicado no dia 4 de Novembro.


O método cartesiano consiste no
Cepticismo Metodológico - duvida-se de cada ideia que pode ser duvidada. Ao contrário dos gregos antigos e dos escolásticos, que acreditavam que as coisas existem simplesmente porque precisam existir, ou porque assim deve ser, etc., Descartes institui a dúvida: só se pode dizer que existe aquilo que possa ser provado. O próprio Descartes consegue provar a existência do próprio eu (quem duvida, portanto, é sujeito de algo - cogito ergo sum, penso logo existo)  e de Deus. O acto de duvidar como indubitável.

Também consiste o método na realização de quatro tarefas básicas: verificar se existem evidências reais e indubitáveis acerca do fenómeno ou coisa estudada; analisar, ou seja, dividir ao máximo as coisas, nas suas unidades de composição, fundamentais, e estudar essas coisas mais simples que aparecem; sintetizar, ou seja, agrupar novamente as unidades estudadas num todo verdadeiro; e enumerar todas as conclusões e princípios utilizados, a fim de manter a ordem do pensamento.

Em relação a
Ciência, Descartes desenvolveu uma filosofia que influenciou muitos, até ser passada pela metodologia de Newton. Ele mantinha, por exemplo, que o universo era pleno e não poderia haver vácuo. Descartes acreditava que a matéria não possuía qualidades inerentes, mas era simplesmente o material bruto que ocupava o espaço. Ele divide a realidade em res cognitas (consciência, mente) e res extensa (matéria). Acreditava também que Deus criou o universo como um perfeito mecanismo de moção vortical e que funcionava deterministicamente sem intervenção desde então.

Matemáticos consideram Descartes muito importante pela sua descoberta da geometria analítica. Até Descartes, a geometria e a álgebra apareciam como ramos completamente separados da Matemática. Descartes mostrou como traduzir problemas de geometria para a álgebra, abordando esses problemas através de um sistema de coordenadas.

A Teoria de Descartes providenciou a base para o
Cálculo de Newton e Leibniz, e então, para muito da matemática moderna. Isso parece ainda mais incrível tendo em mente que esse trabalho foi intencionado apenas como um exemplo no seu Discurso Sobre o Método.
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Publicado por: Praia da Claridade às 00:08
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